Sempre que entrava no armário roçava-lhe numa perna desajeitada e lembrava-se dela. A caixa assinada, testemunha do quotidiano por uns dias, passagem por onde pela primeira vez desfasados nos tempos se tocaram.
Soube que era altura de revelar os seus encantos. Sentou-se no quente da alcatifa, olhou a cúpula cinzenta cega de estrelas ou lua mas acesa, leu-lhe mais um nome, leu-lhe a escrita ampla nas arestas e corrida nas gordas, leu-lhe pensamentos, intenções, leu-lhe o carinho e, nessa ternura a trespassou a x-acto.
Violado o cubo foi lavado pelo odor adocicado, aveludado, inebriante… desejou que fosse o aroma da sua pele, e sentiu-a tremer expectante, lançando-se em roteiros de possíveis expressões corporais, adivinhando-o mal o sabendo.

Por fim, a preto & branco, a coelhinha. Enorme, lindíssima e de afago viciante, duplamente griffada pelo Ícone da masculinidade dos anos 80. Ele sabe que já não o é, já não o pretende ser, mas não lhe desagrada ainda conseguir receber destas criticas, fazem tão bem ao ego como um grande carro, pensou-se.
No seu novo casulo perdeu-se num cigarro. Olhou o telemóvel, depois o teclado e despalavrado saiu, foi dar um beijo ao Mar chovido, para exponenciar no imediato o privilégio de regressar gelado e nela refugiar qualquer frio.
Abraços